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Eu cheguei, e agora?

Filhos dão trabalho! E isso independe da via com que ele foi concebido e desejado. Partindo dessa premissa, engana-se quem acredita que uma criança maior dá menos trabalho.

A adoção de crianças maiores traz consigo a necessidade, tanto de pais como de filhos, de iniciarem o famoso (e temido) processo de adaptação. Talvez este seja o grande entrave para que mais pretendentes habilitados adotem crianças maiores de 3 anos. É muito reconfortante para mim saber que esta realidade vem mudando bastante, e que em algumas comarcas já há fila para crianças de 6 anos em diante. Então, para catalisar ainda mais essa mudança, vamos entender aqui, onde o bicho pega, e quais as principais questões enfrentadas na adaptação da nova família.

Vamos começar pelo clichê mais ouvido quando se fala em adoção de crianças maiores: “Quero adotar uma criança maiorzinha, porque ela dará menos trabalho que um bebê”. Fail total minha gente! Vamos começar desconstruindo uma questão importante: filhos dão trabalhos! Sim, no plural, porque são vários! E isso independe da via com que ele foi concebido e desejado. Partindo dessa premissa, engana-se quem acredita que uma criança maior dá menos trabalho. O que ocorre, em qualquer tipo de filiação, é que criança maior dá trabalho diferente de um bebê. Mas tão cansativo quanto, e em alguns momentos, até mais, já que em algumas fases, coexistem os trabalhos iguais aos de um bebê, somados às necessidades e rotinas de uma criança maior.

Logo, se você não quer ter trabalho, melhor repensar ter filhos. Dito isso, não posso negar que no processo de adaptação de uma criança maior, de um adolescente, alguns “trabalhos” são, sim, particulares a esta condição. Há diferenças em tornar filho uma criança que possui entendimento, emocional e racional, do que esse processo significa. Não quero aqui dizer que todos os processos de adoção e adaptação de uma criança maior sejam iguais, nem de que seja fácil nem difícil. Cada adaptação é única, cada filho e único, cada família é única.

O que elas têm em comum, famílias e crianças, é que estarão à partir do momento da adoção, construindo uma relação que tem como pano de fundo, a história de ambas. Uma criança maior, dependendo da idade, terá pleno conhecimento e lembrança do que a fez chegar até a essa nova família. E essa questão é muito relevante para o que será desenvolvido ali.

Aqui em casa.

Aqui na nossa família, meu filho mais velho, chegou com 8 anos. Ele tinha total clareza de todo o processo, apesar de ter somente 8 anos. Não gostava de falar muito sobre o assunto, mas hora ou outra nos dizia sobre sua história, sobre suas lembranças. O mais novo, chegando com 5 anos, já não tinha tanta referência, e talvez por estar sempre abrigado com o irmão, delegou ao mais velho, essa tarefa de entender e se recordar do que aconteceu.

Desde que chegaram, sempre deixamos um espaço aberto e claro para eles falarem de suas histórias, lembranças, angústias, enfim, o que eles quisessem nos dizer seria acolhido e respeitado. Não sem dor e sem pesar de nossa parte, afinal, tudo que eu queria mesmo para eles era ter chego antes. Vou além: os amo tanto, que o que eu queria, de verdade mesmo, era que isso tudo nem tivesse acontecido com eles. Hoje tenho essa clareza. Mas fato é que aconteceu, e que ainda bem que chegamos, nos encontramos e estamos aqui hoje, família constituída pela adoção e pelo único laço indissolúvel do mundo: o amor.

Quando eles entenderam que poderiam falar sobre suas histórias e suas experiências, e que aquilo não seria um problema para nós, pais, a relação se fortaleceu. Era como se entendessem que estaríamos ali, para eles, independente do que haviam passado e do que sentiam. Queríamos demonstrar que essa experiência agora, seria para sempre, e talvez esta seja a grande premissa da relação com crianças maiores, o entendimento, por parte dos pais e adultos, que aquela criança teve rompido um laço que não se rompe. E que esta experiência, este registro, ficará lá, não importa o que a gente faça. A criança ou adolescente sabem disso, os adultos muitas vezes não.

Só o amor incondicional, pode ser o veículo desse entendimento. Como adultos da relação, precisamos chegar a esta relação com essa premissa sedimentada. O sentimento vai ser construído, no dia a dia. Este sentimento de amor incondicional será a âncora, a base para que a criança ou o adolescente possa despejar suas emoções, suas angústias, suas dúvidas, enfim, tudo aquilo que sentem. E todos estes sentimentos precisam ser acolhidos, ouvidos com atenção e com entrega, para que assim o laço de confiança de que “é pra valer” seja entendido, não só racionalmente mas como emocionalmente pela criança.

Tendo essa base construída, a de que o amor para com uma criança é demonstrar amor e respeito pela sua história, vocês pais já estão prontos para saber que: seus filhos irão testá-los. Das mais variadas formas. E que esse processo é natural, afinal, pense bem: eles estarão entregando sua vida, seus sentimentos, para outros adultos, como aqueles que eles já tiveram um dia como pais e que, por inúmeros motivos, esses laços foram rompidos. Nada mais natural que estejam apreensivos e que não acreditem inicialmente que dessa vez será para sempre.

Testar o amor que estão recebendo é muito natural, é inclusive esperado. Se há teste, é porque há desejo de que esse vínculo seja permanente.

E como os testes acontecem?

De formas muito variadas e, claro, de forma inconsciente para as crianças. Elas testam sem saber que estão testando, utilizam desse artifício para evitar novas decepções, afinal, você lembra que elas já foram decepcionadas, certo? Muitas vezes, em alguns casos.

Cada criança ou adolescente testará de forma específica, de acordo com sua história e de como a relação estará se desenvolvendo na nova família. Mas há alguns testes mais comuns, que várias famílias relatam passar, e um deles é o “vou embora”.

Em algum momento, por motivos variados, desde ser repreendidos ou estar tão eufóricos que ficam com medo, elas pedem para ir embora. Não há uma receita pronta para lidar com o teste, já dissemos que cada relação é única e cada criança também, mas no geral, essa não é uma vontade genuína, é uma forma de perguntar: vocês me querem mesmo? Vão aguentar tudo que eu preciso superar para me sentir seguro? Estarão aqui para mim? Vão fazer como meus genitores fizeram? É em busca dessas respostas que a criança está, em busca de se sentir segura para ser ela mesma, e saber que assim será aceita, e principalmente, amada.

Houve uma vez em casa, que por algum motivo que não me lembro exatamente, os dois queriam ir embora. Queriam voltar para o abrigo, diziam que lá era o lugar deles, que não queriam ser daquela família. Eu segui meu instinto, sabia do que estávamos tratando ali, confiei no que já havíamos construído e disse: “Eu os amo demais, e por amar tanto vocês, não os quero ver sofrer de nenhuma forma. Se fazer parte dessa família é um sofrimento para vocês, vamos acabar com isso.” Peguei duas mochilas e comecei a guardar as roupas deles, dizendo: “Vou sofrer muito, mas o bem estar de vocês dois está acima de qualquer coisa na nossa vida, então vou levá-los para onde vocês serão felizes.”

Eu não queria ser refém desta ameaça, e precisava, acima de tudo mostrar segurança, firmeza. Pois sentia que era essa a necessidade deles naquele momento. Na terceira peça de roupa eles já pulavam em cima de mim dizendo: “Mentira mãe, a gente não quer ir embora não, nunca mais!”

Sentamos os quatro, e nesse dia, tivemos uma super conversa de quanto o nosso laço era para sempre, do quanto independente do que eles fizessem ou desejassem, aquele laço ali não se dissolveria mais. E que isso era sério o suficiente e não precisava ser questionado, porém, todas as vezes que eles quisessem saber da seriedade do nosso vínculo, que tivessem a necessidade dele ser reafirmado, nós estaríamos ali prontos para dizer que os amávamos incondicionalmente e para sempre.

Dali para frente, muitos outros testes aconteceram, e hoje, 7 anos depois, eles são raros. Não recomendo essa minha atitude para todos, afinal, a minha relação com meus filhos é única, e essa foi a forma que encontrei de demonstrar isso para eles de forma muito séria. Cada criança irá testar e reagir aos testes a sua maneira, dentro da relação que foi estabelecida com ela e de sua história. O que deve acontecer é essa demonstração, de que essa relação é definitiva, independente do que aconteça. Essa certeza vai ser construída no dia a dia, com as atitudes, e quanto mais ela se estabelecer, mais diminuirá a necessidade de testes.

A adaptação pode muitas vezes não ser um processo fácil e rápido, nem para as crianças, nem para os adultos, mas é sem dúvida parte importantíssima da construção do vínculo e do amor. O pertencimento é algo que vai sendo construído na convivência, e as atitudes são muito importantes para demonstrarem que o amor incondicional é a base dessa relação, e que os pais estão ali para dentre muitos papéis a serem desempenhados, garantir esse sentimento para essa relação.

É uma fase conturbada, mas totalmente possível de ser vivida e superada. Aliás, estes desafios fazem da perfiliação adotiva algo que transcende e dá sentido a quem pode e deseja vivenciá-la.

Reforçando:

  • Filhos dão trabalho.
  • Crianças mais velhas não dão menos trabalho, mas sim trabalhos diferentes.
  • Testes são mecanismos de defesa, e que acontecem porque há desejo de estabilizar a relação.
  • Cada família deve lidar com o teste com base na relação que constroem e na história de cada criança e adolescente
  • A fase dos testes passa, no tempo de cada família, e a relação se fortalece.
Sobre o Autor
  • Karina Drumond

    Karina Drumond é mãe do Marcelo, de 15 anos, e do Miguel, de 12, casada com o Gui há 7 anos, e juntos eles formaram uma família linda pela adoção tardia. Desde então, busca promover e divulgar a adoção, tendo a certeza de que toda criança merece um lar e que não existe criança inadotável. Karina é psicóloga há 13 anos, e entre alguns trabalhos, realiza Aconselhamento e Coaching para Pais, no projeto Pais Possíveis.

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Comentários
  • Cristiane - 08/11/2017

    Eu cada coisa que leio fico mais anciosa, mais entendida, mais preparada é de suma importância esses exemplos pra minha vida, agradeço a todos vcs por interagir com a gente.

    Responder
  • Maria Angélica Amarante dos Anjos - 07/11/2017

    Excelente reflexão! Obrigada por compartilhar conosco a sua experiência e entendimento. Meu filho também chegou pelas lindas vias da adoção. Convido você a conhecer a minha página do Facebook, Anjos da Guarda Serviços de Apoio à Adoção. Que mais famílias se formem! Grande abraço.

    Responder

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