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Criança fica triste?

É importante deixar claro que a tristeza é uma emoção básica e inerente ao ser humano. Podemos afirmar que ela é tão importante quanto a felicidade, a raiva, o amor, o medo ou o nojo.

Quem está presente nas redes sociais deve ter visto e lido sobre o Setembro Amarelo. O mês foi escolhido para a Campanha Mundial de Prevenção ao Suicídio e que tem ganhado cada vez mais força. Aqui no Brasil, o movimento começou em 2014 e a população tem participado ativamente das discussões sobre o tema, com a ajuda de profissionais da saúde e até se disponibilizando para ouvir os amigos que se sentirem tristes ou angustiados – prática que deve ser feita com cautela para não atrapalhar sua própria saúde.

A importância e repercussão da campanha têm muito a ver com o quanto o suicídio ainda é um tema tratado como tabu, cercado por mitos e fantasias. Tenho certeza que a maioria das pessoas não acha legal ficar falando sobre suicídio e morte. Muitos pais e profissionais também têm medo ou ficam sem saber como falar sobre o tema com as crianças e jovens, se perguntando o quanto eles vão entender, ou o quanto podem ficar assustados e traumatizados. Mas ao contrário do que muitos pensam, falar sobre isso pode ajudar a prevenir e diminuir o número de suicídios na sua comunidade.

O suicídio ainda é muito relacionado ao sentimento de tristeza e à depressão, mas pode estar ligado a outros sentimentos e transtornos também. E quando se trata de crianças percebo que ainda é muito difícil para as pessoas associar a infância a sentimentos considerados negativos. Então é importante deixar claro que a tristeza é uma emoção básica e inerente ao ser humano. Dessa forma, podemos dizer que a tristeza é tão importante quanto a felicidade, a raiva, o amor, o medo ou o nojo. Já os motivos da tristeza são construídos socialmente e podem variar de uma comunidade para outra. Talvez algo que nos deixe tristes aqui no Brasil, na China seja algo irrelevante. Então não se trata necessariamente de saber qual o motivo da tristeza das pessoas, mas o quanto essa tristeza está afetando a sua vida social, afetiva, escolar ou profissional.

As notas e o rendimento escolar são grandes medidores para a escola, que sente a necessidade de chamar os pais e encaminhar as crianças. Costuma ser a partir daí que os pais se envolvem mais na questão e procuram ajuda profissional. Mas ainda é possível perceber antes se estiverem atentos a outros sinais, afinal, são diversas as formas de expressar os sentimentos e cada pessoa vai ter o seu jeitinho próprio e especial de fazer. Para isso, é preciso estar atento ao comportamento da criança e à forma como ela costuma expressar seus sentimentos.

Quem melhor do que seus pais, com todo o seu carinho e instinto, para perceber que alguma coisa não está bem, não é mesmo? É importante lembrar que você conhece seu filho melhor do que ninguém, já que o acompanha desde as primeiras horas de vida. Se parar para refletir, vai ver como sabe exatamente quais serão as reações da criança diante de algumas situações, o que a chateia, o que a deixa triste. Usando esse conhecimento você pode ajudar sua criança a desenvolver inteligência emocional e autonomia.

É possível desenvolver inteligência emocional!

Existem diversas formas de instrumentalizar as crianças para identificar e lidar com os sentimentos – a tal inteligência emocional – e logo vamos falar sobre como fazer isso. Mas na prática a gente só vai vivendo e as crianças vão observando e de repente a gente se pega surpreso de ver que nosso filho faz a mesma cara enfezada do pai, e a filha se tranca no quarto igual a mãe quando quer chorar, por exemplo.

A verdade é que com tantas coisas para se preocupar a gente acaba deixando de lado a educação emocional das crianças e muitas vezes o trabalho vai dobrando com o tempo. Também é importante pensar no quanto nós, enquanto adultos, pais, educadores, precisamos nos fortalecer e reeducar para assim ser exemplo e mudar o futuro dos pequenos. Somos espelhos e é na gente que eles se apoiam e se inspiram.

“Mas então o que a gente faz?” Perguntam os pais desesperados. “Meu filho bate nos colegas, ele não me respeita, ele só quer ver TV. Tudo isso é tristeza?” Não. Mas tudo isso quer dizer que tem alguma coisa que a gente não está vendo ou não está percebendo. E essas coisas precisam ser expressadas.

Existem mudanças de comportamento que às vezes são tão sutis que não nos damos conta e somente durante uma conversa mais atenta paramos para pensar: quando aquilo começou? Mesmo para as crianças, existe um gatilho para a tristeza e posteriormente maus comportamentos. A questão é que a criança ainda não sabe dizer o que está sentindo e muito menos o que fazer com o que está sentindo, afinal, é só uma criança e está aprendendo tantas coisas – o alfabeto, a falar direito, a cantar músicas, chutar a bola no gol…

Se você percebe que seu filho tem chorado mais do que o comum, tem feito mais birra do que costumava fazer, ou começou a sentir medo de alguma coisa que antes não sentia, é hora de ficar atento! Chame seu filho, converse, acolha e tente criar com ele estratégias para lidar com essas situações. Caso você perceba que não está adiantando, procure ajuda profissional. Como eu disse, a infância é uma fase de muitos aprendizados, e assim como orientamos as crianças na alfabetização, podemos orientá-las sobre o que fazer com seus sentimentos.

Por onde eu começo?

O primeiro passo importante para desenvolver inteligência emocional é ensinar as crianças quais são os sentimentos. Procure saber quais elas conhecem e comece pelos mais comuns (alegria, tristeza, raiva, medo, nojo). Existem filmes e livros infantis que tratam desse tema dos sentimentos e podem ser ótimas ferramentas.

Quando elas souberem quais são os sentimentos, ensine a identificar cada um deles através de expressões faciais e sinais corporais – o que acontece no seu corpo quando você fica muito feliz? Seu coração bate mais rápido? Seus lábios se esticam para cima e seus dentes aparecem? Sabendo identificar os sentimentos, as crianças podem então aprender como lidar com eles.

O próximo passo é oferecer às crianças opções do que fazer com esses sentimentos. Reflita sobre o que você sente necessidade quando está triste – por exemplo: ficar sozinho, tomar um banho quente, ouvir uma música animada – e adapte para a idade do seu filho, sugerindo opções e estratégias para que ele possa experimentar, vivenciar e descobrir aquela que lhe faz melhor. Nesse momento é importante lembrar que cada criança tem o seu jeito e nem sempre escolherá a estratégia que você mesmo escolheria. Seja paciente e lembre-se: é um processo de aprendizado.

A medida que a criança for vivenciando situações de tristeza, incentive e estimule que ela utilize as estratégias que vocês definiram e quem sabe criar novas estratégias para lidar com aquela situação específica. Esteja por perto e se faça presente nessa jornada que é o autoconhecimento. Muitas vezes nem você saberá muito bem como agir, mas lembre-se que ser mãe e pai é muito mais sobre aprender do que sobre ensinar: se disponha a aprender junto com seu filho sobre ele e sobre você mesmo.

Concluindo:

É importante não só deixar que as crianças se expressem, mas ensiná-las como fazer isso de uma maneira saudável e efetiva. É tão importante sentir tristeza quanto sentir alegria, mas a alegria costuma ser extravasada, enquanto a tristeza fica guardada dentro da gente, gerando doenças e mais problemas.

Para termos crianças mais saudáveis e felizes e mantê-las longe da depressão precisamos primeiramente mudar as nossas crenças sobre o que é estar triste. Dessa forma, também aprenderemos a manejar nossos próprios sentimentos e serviremos de exemplo para as crianças.

Então, lanço aqui a campanha: #épermitidosentirtudo e aos poucos vamos aprendendo o que fazer com cada sentimento!

Sobre o Autor
  • Luísa Gonçalves

    Especialista em Terapia Sistêmica, Luísa sempre foi apaixonada por crianças e já ingressou na faculdade de Psicologia pensando em trabalhar com o universo infantil. Atualmente realiza atendimento psicoterápico de crianças, e processos de coaching e consultoria para pais. Acredita que através do seu trabalho, pode plantar sementinhas e deixar crianças melhores para o futuro.

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