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Preparando o corpo para a gestação?

O que é necessário preparar antes mesmo de engravidar, você já se perguntou isso? Vem comigo, que vou te trazer uma perspectiva bem realista e talvez um pouco diferente do que você está acostumada, mas eu diria que é fundamental.

Tudo começou mais ou menos assim… Um primeiro contato, um convite, uma conversa regada a café, a mais sincera vontade de contribuir para este mundo, e agora estamos aqui…Neste canal falaremos de coisas comuns, triviais, raras, exceções, fatalidades, doenças, curas, coisas tristes e alegres. O intuito é trazer informações com embasamento teórico e técnico, nada de “achismos” por aqui.

Você está mesmo preparada para ser mãe?

Começo esta nossa jornada falando sobre a decisão de ser ou não mãe, e suas implicações sob o aspecto social e financeiro. Afinal, de forma cultural, a sociedade cobra das mulheres, filhos.

– Oi Fulana, e dai? Quando vem os babies?

Quem nunca perguntou ou escutou esta frase? Ela é realmente muito comum, mas deveríamos ter mais cuidado,  pois nem toda mulher quer ser mãe; e vamos ser sinceras, não há problema algum nisso.

Muitas mulheres já entenderam que a felicidade não está atrelada somente a maternidade. E tem mais, você já parou para pensar que muitas não podem ter filhos, mas preferem não expor isso? E nestes casos, esta pergunta machuca. Outras não estão em um bom momento conjugal. Enfim, são inúmeras as causas que transformam esta pergunta em um bicho de sete cabeças. Deixemos esta parte para amigas íntimas, e olha lá.

Bem, e quando o casal quer ter filhos? Quais são os primeiros passos antes de iniciar as tentativas? Será que basta fazer alguns exames e tomar ácido fólico (para diminuir as chances de má formação do tubo neural)? A maioria das pessoas pensa que sim.

Aos meus alunos costumo dizer que gostaria que houvesse uma prova, como existe para entrar na faculdade, aplicada às mulheres e homens que desejam ser pais, com intuito de avaliar a aptidão, e no caso de reprovação teriam que estudar mais e tentar novamente. Talvez isso te soe estranho, mas acredite, essa história de que amor de mãe e de pai é instintivo, de que quando nasce o bebê nasce o amor, é infelizmente um mito, e mesmo assim, só o amor, não é suficiente para criar filhos. (Já sabemos que nem toda mãe é boa, nem toda mãe ama; falaremos mais a frente sobre estas patologias psiquiátricas maternas).

A maternidade traz muitas questões das quais nunca se quer imaginávamos que iríamos passar, e aí eu te pergunto, será que estamos mesmo preparados para isso? Porque não investimos em preparação para o “ser pais” tanto quanto investimos em enxoval, roupas, chá de bebê e tudo mais? E olha, não estou me referindo apenas a investimento financeiro, mas investimento de tempo, de pesquisa, de querer saber mais, de ver o que realmente é essencial, o que precisa ser pensado ou mesmo questionado.

A gestação não é um conto de fadas.

Para uma minoria tudo é perfeito. Para os que não tem condições financeiras e psicológicas começam a surgir problemas ainda na gestação; isso sem esquecer de mencionar aquelas que tem problemas de saúde, ocasionando uma gestação de risco. Claro, existem os imprevistos também. Contar cegamente com sistema único de saúde é o primeiro grande erro. Pensar que você terá uma gestação de baixo risco e que seu bebê nunca terá qualquer problema é a pior ilusão; a que mais dói quando o problema aparece, devido ao sentimento de impotência. Meu convite é para abrir sua mente e pensar: emocionalmente estou preparada pra sair da minha zona de conforto? Isso mesmo, sair da zona de conforto. Sabe porquê?

A vida social muda, seus passeios mudam, você dormirá e acordará conforme a necessidade do filho e não a sua. Bom, mas até aí tudo bem né, mas quero ir um pouco mais a fundo. Você já parou de usar suas medicações pra dormir? Parou de fumar? Já terminou seu tratamento médico? Financeiramente, se necessitar de exames, além dos que o SUS disponibiliza, poderá pagar? Se o médico indicar repouso poderá fazer, ou depende do seu trabalho (no caso de profissional autônomo)? Se desenvolver hipertensão ou diabetes conseguirá arcar com o tratamento? E se nascer prematuro? O Brasil sofre com falta de vagas em UTI neonatal, está consciente deste risco? Tem condições de pagar um plano de saúde para amenizar alguns problemas com relação à saúde? Após o nascimento, se ele necessitar de leite, que não seja o seu, por algum motivo, terá condições de pagar? Quem vai cuidar do bebê? Vai colocar na creche? Mas terá vaga? Terá condições de pagar escolinha? E a escola? Mesmo que você tenha muito dinheiro, você terá tempo para educar ou será criado e educado pela babá ou avós? Terá tempo para dedicar ao filho?

Veja bem, talvez você esteja pensando “Ah, mas se é para pensar em tudo isso ninguém teria filhos”. Então quero te trazer um outro olhar: se mais pessoas tivessem pensado nisso tudo ANTES de ter filhos, será que muitos problemas e sofrimentos desnecessários não poderiam ter sido evitados? Todos não, mas muitos deles com certeza.

Até aqui não falei na vontade materna de ter um lindo quarto para o bebê, estou falando da realidade básica, das necessidades. Também não estou desencorajando mulheres que sonham com a maternidade, estou chamando atenção para planejamento estratégico. Como se planeja a vida antes de casar, sabe? Aquela coisa de pensar se você quer viver por toda sua vida com aquela pessoa, nos dias bons e ruins, de querer um casamento lindo, mas deverá guardar dinheiro para isso, ou abdicar daquele sonho por algo mais simples, e também de saber que haverá prós e contras, e que você vai ter que lidar com esses contras se quiser continuar casado. São planos A, B, C. Acontece que no casamento, se você quiser, em último caso, você separa; mas filhos são para a vida toda, não tem como voltar atrás!

Agora, quando você planeja, encontra menos problemas, por estar, teoricamente, preparada. As chances de você se frustrar, caso algo dê errado, são menores, comparadas a quem nem se quer pensou nas necessidades de um possível plano B ou C. E se tudo for perfeito, como no seu sonho, você disponibilizou reservas mentais e financeiras que são suas. E por que você não está planejando a vida que quer gerar ou adotar? Não sabia de todos percalços? É, eles existem, os vejo acontecendo todos os dias. E por isso senti a obrigação de alertar, contar.

Para finalizar:

Ser pai e mãe necessita de responsabilidade, vigilância, abdicação, paciência, dedicação, estratégia, prevenção. Filho não se devolve, não se coloca novamente dentro da barriga. Filho é, para a mãe e para o pai, a versão do amor ocupando espaço, tendo forma física.

Provavelmente você está achando estranho ler isso tudo escrito por uma médica obstetra, mas o objetivo do primeiro artigo aqui, para o Licença Maternidade, foi te trazer uma reflexão sobre o “ser mãe” de forma real, partindo do princípio de tudo que vejo no dia a dia do meu trabalho. Espero que tenha compreendido que estes questionamentos, por mais que sejam muitos, são necessários para uma maternidade segura.

No próximo mês embarcamos na luta do período fértil, na tão desejada fecundação e seus sintomas. Até lá.

Sobre o Autor
  • Ana Comin

    Médica ginecologista e obstetra, Professora de ginecologia e obstetrícia da UNIVALI, e Staff da residência médica de ginecologia e obstetrícia do Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, também possui Especialização em estética vaginal (cirurgia, laser). Dra. Ana Comin, realiza pré natal de pacientes de alto risco, e possui ALSO, um curso de emergência em obstetrícia.

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