Procurar

Adultos feridos, ferindo seus filhos

O maior desafio em educar uma criança é precisar ensinar aquilo que nem mesmo nós, fomos capazes de aprender. Quantas feridas tivemos lá no passado, e que até hoje deixam marcas? O quanto será que isso influencia na forma como educamos nossos filhos? Será que precisamos mesmo ser sempre 8 ou 80?

O maior desafio em educar uma criança é precisar ensinar aquilo que nem mesmo nós fomos capazes de aprender. E para ilustrar isso melhor, optei por iniciar este texto com uma leve “provocação”, onde quero que você seja muito honesto ao responder estas perguntas. Você precisa saber estas respostas, pois vai precisar ensinar os recursos que utiliza para seus filhos.

  • Quantas vezes somos nós que faltamos com respeito aos nossos semelhantes?
  • Quantas vezes somos intolerantes, grosseiros e arrogantes com outras pessoas?
  • Como você lida com a sua raiva?
  • Como você resolve seus conflitos?
  • Como você lida com frustrações?
  • Como você espera pela sua vez na fila?

Se pararmos pra pensar em todas essas respostas, perceberemos que exigimos que as crianças sejam quase perfeitas, e cobramos delas atitudes que nem nós, adultos, que temos consciência dos nossos atos e suas consequências, damos conta de executar.

Talvez você esteja com um pouco de dificuldade para compreender aonde eu quero chegar com isso, mas para clarear, e abrirmos espaço a discussões, vou descrever agora algumas situações que demostram completo descontrole e falta de recurso para lidar com situações adversas que já observei, e que ocorrem com certa frequência.

Situação 1

João (6 anos) e Augusto (7 anos) brincaram juntos a tarde toda e já estava anoitecendo, então a mãe de João pediu que ele se despedisse do amigo e entrasse em casa para tomar banho. Mas João ficou muito irritado, pois queria continuar brincando e não entendia porque precisava entrar em casa. Ele, com toda irritação, cansaço e sobrecarregado de frustração, olha para sua mãe e diz: – Sua chata, sua boba. Eu te odeio!

A mãe do João, se sentindo completamente ofendida pelo filho de 6 anos, dá um tapa na boca dele, diz para ele nunca mais falar assim com ela, e arrasta o menino chorando para dentro de casa.

Posteriormente, quando questionada sobre porque bateu no João, a mãe diz que ele precisa aprender a respeitá-la! E aí, eu te pergunto… Como é possível ensinar sobre respeito se nem mesmo eu, respeito o outro? Será que bater, dar um “tapinha” na boca, é mesmo a melhora forma de ensinar a respeitar?

Talvez você esteja pensando que uma criança falar isso a um adulto, ou aos pais, é inadmissível, mas acredite, há outras maneiras mais assertivas e respeitosas de ensinar sobre respeito, ao invés de bater! E já já você vai compreender que outras possibilidades seriam estas!

Situação 2

Maria e Pedro (ambos de 2 anos) estão esperando na fila do pula-pula, quando Pedro cansa de esperar e empurra a Maria com força. Maria se assusta e corre contar para mãe que o Pedro havia empurrado ela.

Antes mesmo de perguntar se Maria estava bem ou se havia se machucado, sua mãe parte em direção a Pedro e diz: – Ei , você não pode empurrar as pessoas assim. Vem aqui agora e pede desculpa para minha filha.

Pedro, assustado com a reação da mãe da Maria, dispara chorando em direção a mãe dele e só consegue dizer que a moça gritou com ele. A mãe de Pedro vem tirar satisfação com a mãe de Maria, e agora temos dois adultos discutindo para ver quem manda mais, e duas crianças chorando sem receber apoio.

Parece uma reação um tanto quanto exagerada? Você talvez tenha se espantado um pouco com este exemplo, mas também já vi acontecer muitas vezes. Você já se perguntou alguma vez, como se sentem essas duas crianças ao ver uma situação dessas, de descontrole das suas mães?

Situação 3

Jaqueline e Lívia (ambas de 4 anos) estão disputando uma boneca que querem brincar, uma puxa pra um lado, a outra arranca da mão da amiga, e acabam se estapeando. Os pais de Jaqueline e Lívia assistem ao jogo de futebol, e parecem ignorar a briga das meninas que acontece bem ao lado deles.

Num determinado momento, cansados de tanta gritaria, cada um pega sua respectiva filha pelo braço, dá um tapinha na bunda, diz que vão ficar sem televisão e sentam as meninas ao lado deles para assistir o futebol também e pensar um pouco no que fizeram. As meninas frustradas e com raiva, sentam emburradas e começam a pensar em como foram injustiçadas em ter que ficar ali, fazendo nada.

Uma breve avaliação

Olha só, nas três situações os adultos perderam a chance de ajudar seus filhos a encontrar formas mais assertivas de manifestar sua raiva e frustração. Crianças são como filhotes, acabaram de chegar ao mundo e precisam de ajuda para compreender as regras sociais.

Talvez neste momento você se pergunte, “Ué, mas uma criança de 7 anos já não sabe o que é certo ou errado?”. Provavelmente ela sabe sim, mas veja bem, não é questão de saber ou não, se o que ela está fazendo é certo, mas se o que cobramos deles, realmente tem a ver com o que está dentro das possibilidades de maturidade deles, ou se a nossa interpretação é que está equivocada. Afinal, não podemos esperar comportamentos de adultos, em crianças, até porque, convenhamos né, nem nós temos comportamentos tão adultos assim em algumas situações.

O que acontece é que os pais, feridos por suas próprias vivências, carregando suas dores e frustrações, muitas vezes, enxergam nos seus filhos os seus algozes. Olham, para criança como se ela fosse realmente má, como se desejasse feri-los. Assim, perdem a oportunidade de fazer diferente, de curar suas próprias feridas, ouvindo e acolhendo as dores dos seus filhos.

Ainda está com dificuldades em pensar de uma forma diferente das citadas acima? Veremos então, como ficariam as 3 situações se os adultos envolvidos conhecessem a educação não violenta e aplicassem os seus princípios.

Situação 1

Ao chamar a mãe de chata e dizer que odeia ela, a mãe de João se sentiu ofendida, teve seu ego ferido e pensou: Como ele pode dizer uma coisa dessas para mim? Quem ele pensa que ele é? Tudo que eu faço por ele, e ele tem coragem de me dizer isso?

Esse tipo de pensamento, a mãe de João tem constantemente, seja no trabalho, em casa ou com amigos. Ela sente que precisa provar seu valor, e que gritando e mostrando sua força, ela conseguirá que todos a respeitem. Sendo assim, ao ser contrariada tende a agir com agressividade, como foi possível perceber na situação.

Todavia, porém, entretanto… A Mãe de João começou a fazer psicoterapia, decidiu tentar uma forma de educar diferente e passou a acompanhar esse canal de educação não violenta, com o objetivo de ajudar seu filho a externalizar a raiva de uma forma positiva, e também de perceber suas próprias emoções a respeito das reações dele. Coisa que ela demorou muito para aprender a fazer.

Sendo assim, em outra situação igual, quando João a chamou de feia, chata e disse que a odiava, ela entendeu que ele se sentia frustrado por não poder brincar mais e dizer essas palavras, era a forma dele manifestar sua frustração. Então ela se abaixa na altura do filho, olha nos olhos dele e diz em um tom de voz sério, porém de forma respeitosa:

– Eu sei que você está frustrado, você gostaria de brincar mais com seu amigo. Agora é tarde e amanhã você terá escola, mas a semana vai passar rápido e no sábado vocês poderão brincar novamente. Na próxima vez que você se sentir triste e achar que eu estou sendo injusta com você, quero que use outras palavras para manifestar sua raiva. Você pode dizer que está chateado, por exemplo, por ter que interromper a brincadeira. Assim, iremos conversar até encontrar uma solução para o nosso problema. Combinado?

Após essa conversa, a mãe de João permite que ele entre chorando e emburrado para dentro de casa. E mais tarde, quando João já estiver calmo e pronto para dormir, ela conversa novamente com ele sobre o ocorrido e relembra o combinado deles. Se você prestar atenção, nas duas situações ele fica frustrado e chateado, mas na segunda, a mãe está agindo de forma muito mais assertiva, e permitindo que ele sinta tudo isso, mas ela que está no controle, e o principal, sem perder o próprio auto controle.

Situação 2

A mãe de Maria não suporta ver sua filha ferida por um “valentão”, ela quer justiça e vai atrás disso, ela mesma. O quão lógico é discutir com uma criança de 2 anos que não é nem seu filho? E o quão logico é tornar um acontecimento de criança, em uma briga de adulto? É possível perceber que a mãe de Maria precisa muito se assegurar que sua filha está protegida de todos os perigos.

Todavia, porém, entretanto… A mãe de Maria leu todos os livros de comunicação não violenta e de educação não violenta e decidiu mudar! Sendo assim, quando Maria a procura dizendo que foi empurrada, ela se agacha na altura da filha, a abraça e pergunta se está se sentindo bem. Pergunta se doeu muito e se tem algo que ela pode fazer para ajudá-la a se acalmar.

Quando Maria já está calma, sua mãe a orienta a ir até Pedro e dizer a ele que não gostou de ser empurrada, que não quer que ele faça isso de novo. De longe, ela observa sua filha conversar com Pedro, nas suas próprias poucas palavras de 2 anos de idade. E se orgulha da filha que desde já, que aprende a se defender sozinha. J

Situação 3

Os pais estão mais preocupados com o futebol do que com suas filhas. Depois de deixar as crianças brigarem sem intervir, correndo o risco que elas se machucassem, eles resolvem separá-las e castigá-las.

Todavia, porém entretanto… Vamos imaginar que eles foram para uma imersão em disciplina positiva e aprenderam técnicas muito uteis de educação não violenta. Quando Jaqueline e Lívia começam a brigar, eles já separam as meninas e perguntam o que está acontecendo.

A briga estava acontecendo porque a Lívia não queria emprestar a boneca dela para Jaqueline. Então o pai da Jaqueline pede que ela brinque com um dos brinquedos que ela mesma trouxe, pois nesse momento a Lívia não quer emprestar e está no direito dela. O pai de Lívia diz que se ela não quer emprestar pode guardar a boneca e propor outra brincadeira.

Os pais ajudam as meninas a pensar em opções para brincar juntas e a negociar. Eles ensinam que nem sempre as coisas são como a gente quer, que cada uma tem a sua vez, seu momento, mas que sempre é possível entrar em um acordo.

Finalizando:

Encerro esse texto dizendo que todo mal comportamento é uma oportunidade para ajudar nossos filhos a viver em sociedade, e o diálogo e o exemplo, ensinam. Castigos e palmadas punem, deixam feridas e reprimem o comportamento.

Te convido a parar, refletir, e tentar identificar quais os sentimentos que você teve, quando perdeu o controle pela última vez e partiu para um comportamento mais agressivo com seu filho, ao invés de tentar agir com respeito e tolerância?

Eu sei, o caminho da educação não violenta pode parecer um pouco difícil e cansativo, principalmente para quem não está acostumado, ou que foi criado de forma tão diferente na sua própria infância. Mas acredite, ensinar a arte da tolerância, do respeito e do amor, apenas com diálogo, respeito e amor, é possível! 🙂

Sobre o Autor
  • Letícia G. Gonçalves

    Letícia G. Gonçalves é psicóloga graduada pela UFSCar, consultora em disciplina positiva e está se especializando em Psicologia da Maternidade. Criadora do Blog Conversa entre Marias, atua como psicóloga clínica e consultora educacional, realizando atendimentos online e presenciais.

Compartilhar Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google+ Compartilhar no Pinterest
Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Comentários
  • Milene - 21/11/2017

    Muito bom esse assunto! Realmente é um desafio Educar e educar uma criança sem violência pode ser trabalhoso no início pq não é só educar os filhos, mas tbm os pais se auto educar e a convivência concerteza sera mais harmônica. Aprender a usar palavras e comportamentos gentis para que as crianças tbm sejam. Adorei!

    Responder
  • Jucelio - 13/11/2017

    Precisa-se ensinar antes de acontecer o conflito para a criança saber o que é esperado dela. Claro que é necessário os pais serem exemplos, senão é hipocrisia. As palavras até podem convencer, mas os exemplos arrastam... Devemos lembrar que uma criança antes de assumir a responsabilidade por uma atitude, deve ser treinada, e treino custa tempo e determinação do treinador e do treinando. Outra coisa importante a se levar em consideração, é que as liberdades devem ser dadas conforme a criança demonstre responsabilidade .

    Responder
  • antonio josé amooso - 13/11/2017

    Muio bom, esou refletindo até agora.

    Responder
    • Letícia Gonçalves Autor - 13/11/2017

      Fico feliz que tenha gostado e fico aguardando sugestões para o próximo tema.

      Responder
  • LUZIA - 12/11/2017

    Amei sua postagem.A pura verdade.

    Responder
  • francisca ferreira de sousa vieira - 11/11/2017

    Olá, gostei muito de seu artigo sobre "adultos feridos, ferindo seus filhos". Também sou Psicóloga e estou atuando com Gestantes e Puerperas. Vc tem alguma dica de leitura que eu possa adotar? Desde já, por sua atenção Obrigada!

    Responder
    • Letícia Gonçalves Autor - 13/11/2017

      Você pode ler: como falar para o seu filho ouvir, como ouvir para o seu filho falar , Já tentei de tudo e o disciplina positiva.

      Responder
  • Janine Lago - 11/11/2017

    Preciso de uma ajuda, minha filha tem 14 meses e chora berrando todas as vezes que entra no carro a noite quando voltamos do trabalho. E eu não descobri como acalmá lá. Alguma dica?

    Responder

Você também vai gostar

Continuar Lendo

[VÍDEO] Dicas para um desfralde tranquilo

O desfralde é uma fase delicada e tem que ser feito com alguns cuidados, para que ocorra da forma mais tranquila possível, e no tempo certo. Apesar de não ter uma idade ideal, os pais podem ficar atentos a alguns sinais, que demonstram se a criança está ou não preparada. Quer saber mais? Aperta o play!

NewsLetter

Você gestante, tentante ou simplesmente apaixonada pelo universo da maternidade? Então se inscreva aqui e receba gratuitamente nosso melhor conteúdo, preparado especialmente para você.

Licença Maternidade