Procurar

Comportamento opositor: você já ouviu falar?

Seu filho não aceita ser contrariado? Está fazendo muitas “birras”? Entenda o que é comportamento opositor, e como lidar da melhor forma possível com essa fase da vida dele.

Entende-se por opositor o comportamento que tem um padrão persistente desobediente, negativo, hostil, e desafiador. Geralmente, na maioria das crianças, a fase de “testar os limites”, ou aprender os limites, começa logo após o primeiro ano de idade e se estende até os 4 anos, e é justamente nessa fase que surge o comportamento opositor.

É importante saber que neste período do desenvolvimento, seu filho começa a entender que você não é uma extensão dele. Dessa forma, a criança dá início a uma busca por mais independência e controle sobre o próprio mundo. É aqui, também, onde ocorre a fase de conhecer a frustração (como por exemplo, os “nãos”), o que não é apenas normal, como também apropriado e importante no desenvolvimento da criança.

O comportamento opositor surge nesse contexto, porque a criança ainda é conduzida por suas necessidades, desejos e impulsos, e não por lógica e razão – e saber disso é essencial para aprendermos a lidar com as situações onde esse comportamento se manifesta.

Algumas crianças são simplesmente, por natureza, mais propensas a ser desafiadoras do que outras. Aquelas cujas reações são mais ousadas e intensas, bem como, as mais cautelosas e temerosas, podem ser mais opositoras do que as crianças que são “fáceis” e flexíveis. Eles tendem a ter muitas dificuldades de lidar com mudanças e, portanto, protestam, especialmente em situações de transição. Ir de um local da casa para outro, entrar ou sair do carro, colocar um calçado ou roupa, por exemplo, são situações onde normalmente o comportamento opositor ocorre.

Como inicia o comportamento opositor

A partir dos 2 anos, seu filho já conhece o poder do “não” e o externaliza com intensidade.  Esta é uma fase de muitos “nãos” para os pais e cuidadores, tornando o trabalho de estabelecer limites muito dificultoso, e até mesmo cansativo. Por ser um período de descobertas, o interesse e curiosidade deles pelo mundo é grande e contagiante, mas, consequentemente, eles estarão mais expostos a perigos e a se meterem em “encrencas”. Desta forma, os pais e cuidadores acabam sentindo-se mal por ter que dizer tantos nãos, e até se questionam se este é o caminho certo.

Querer atravessar a rua sem supervisão, subir em cadeiras e mesas, escalar muros, estantes, juntar coisas sujas do chão, comer ou beber algo nocivo a saúde são comportamentos esperados das crianças, mas que exigem limites por parte dos pais, e os famosos e repetitivos “nãos”. Sim, crianças odeiam ouvir ‘não’, (e você deve concordar que nós, adultos, também), porém, é preciso ter em mente que nós é quem estamos aptos a compreender a necessidade delas.

Dizer não e estabelecer esses limites se torna muito mais difícil se a criança só começou a tê-los quando o comportamento dela se tornou um problema. É bom lembrar que nessa fase, seu filho ainda não adquiriu a linguagem necessária para identificar emoções e expressar sentimentos, então fará uso dos recursos que sabe usar bem: voz e arremesso. J É comum também a criança bater na mãe ou pai, como também é comum ver o comportamento dos pais em revidar, batendo na criança para “ensinar a ela que não se bate nos pais”. Você percebe a incongruência dessa atitude?

De fato, seu filho precisa aprender que não se deve bater em ninguém, mas você não irá ensiná-lo que um ato é errado o repetindo. Diálogo e acolhimento apropriados para a idade do seu filho são muito mais eficientes que o medo e violência – duas táticas que são prejudiciais para qualquer pessoa, mas potencialmente mais nocivas para crianças em fase de desenvolvimento.

Eu sei que muitas vezes pode parecer assustador e cansativo lidar com comportamento opositor, principalmente se você já teve outros filhos e nenhum deles foi assim. Nesse caso, é importante lembrar que não há dois filhos iguais, que cada um tem características muito peculiares e que isso deve ser acolhido e respeitado.

Próxima fase…

Aos 3 anos, o comportamento opositor fica mais frequente e repetitivo, mais intenso, e na maioria dos casos os pais já estão um pouco exaustos e preocupados, pois como eles mesmo dizem “tentaram de tudo e o comportamento continua a se repetir”. Nesse ponto, a casa já se tornou um campo de batalha com muito estresse e constrangimento para os pais, e extremamente estressante para a criança – que sofre muito mais com as toxinas do estresse que seu cérebro ainda imaturo libera na corrente sanguínea.

Por mais tentador que pareça, gritos, berros e tapas por parte dos pais não são sinônimos de um comportamento saudavelmente adaptado e competente para a situação, e nem resolverão o comportamento opositor. Muito pelo contrário, essas atitudes tendem a agravá-lo. Pode até ser que de imediato o comportamento da criança pare, mas ela não parou porque aprendeu, e sim porque ficou com medo, ou assustada, sendo assim, vai se repetir lá na frente.

Mas o que fazer então?

Muitos pais têm medo de estar perdendo o respeito e a autoridade perante o filho nessa fase. Sem contar com os comentários como: “se ele bate na sua cara agora imagina quando tiver 10, 15 anos?”.  Pessoalmente, eu gostaria de refutar integralmente esse comentário, porém, tomadas as devidas proporções, minha experiência me leva a concordar com ele. Limites são fundamentais à educação e construção do ser humano.

Lembro que no meu trabalho, ao observar a rotina e fazer intervenções nas dinâmicas das famílias, os pais ficavam surpresos comigo por duas questões:

  1. Porque eu não advogo pela punição física, então acabavam por achar que automaticamente eu estaria lá para promover a ideia de que criança pode tudo;
  2. Porque as estratégias que eu os apresentava eram tão simples que eles duvidavam que poderia fazer algum efeito.

Algo que observei com certa frequência e que vejo se repetir em muitas famílias, é o fato de que na maioria das vezes, para mostrar à criança que “aqui quem manda sou eu”, os pais entram num “cabo de guerra”: acabam por não querer ceder, com medo de assim estar criando um “monstrinho”, mas, ao mesmo tempo, também já não sabem mais o que fazer pra mudar o comportamento do filho.

Precisamos entender que uma criança de 3, 4 anos de idade está agindo impulsionada por suas emoções mais básicas, já que seu cérebro ainda não desenvolveu a parte executiva e, portanto, sua capacidade de suprimir impulsos e fazer um julgamento levando em conta consequências de escolhas e decisões não está desenvolvida. Definitivamente, seus filhos não estão a nível de travar disputa de poder territorial com você. Eles não têm limites nem autocontrole, e precisam do seu apoio para aprendê-los.

Ah! Mas você fez assim com seus outros dois filhos e deu certo; você viu seus irmãos, amigos, seus pais fazerem isso e deu certo? Muito bem, mas desta vez você está lidando com outra personalidade, é preciso ajustar os meios para chegar ao fins.

Seu filho está testando os limites e descobrindo até onde vão os “nãos” e suas consequências tanto para si mesmo quanto na dinâmica familiar. Se a reação dos adultos ao impor limites e dizer não for estressante e extremista, a criança aprende que dessa forma ‘bota fogo no circo’ – ou seja, que os adultos entram em conflitos entre si, se alteram, brigam – e então ela consegue a atenção desejada, mas junto com essa atenção vem também a experiência de culpa.

Ajustar os meios e impor os limites de uma forma saudável é essencial nessa fase. Se a criança chegar aos 10 anos ainda com comportamentos opositor deste nível,  o desafio será ainda maior, já que alguns traços do comportamento já estão bem reforçados. De qualquer forma, sempre há possibilidade de ajudar a superar esta fase do desenvolvimento dela ou restaurar as partes que precisam de ‘reparos’.

Partindo para a prática:

Baseada nos trabalhos que desenvolvi com as famílias onde atuei, vou sugerir aqui algumas formas de responder ao comportamento desafiador e de oposição da criança. Farei isso de modo mais generalizado, com estratégias que podem ajudar alguns de vocês pais/cuidadores, educadores, que estejam passando por alguma situação semelhante. Contudo, é importante salientar que há casos que necessitam de um olhar individualizado, dentro do contexto da queixa apresentada pelos pais e de sua dinâmica familiar.

Vamos lá!

  • É fundamental validar os sentimentos do seu filho.
  • Defina o limite em uma frase simples, sem muitas palavras ou explicações desnecessárias e inadequadas à faixa etária da criança.
  • Ofereça algumas opções (todas devem estar dentro do aceitável para você).

Vamos pensar em uma situação que todos os pais\cuidadores passam: a famosa (e muitas vezes temida) hora de dormir. Suponhamos que seu filho está se recusando a vestir o pijama para ir dormir. Você pode argumentar da seguinte maneira:

“Eu sei que você não quer colocar seu pijama para ir dormir. O tempo de brincar passa rápido, né?  Mas é hora de dormir para que você possa crescer grande e forte. Lembra que a mamãe/papai falou que é quando a criança está dormindo que o corpo usa toda a comidinha que ela comeu pra ajudar nisso?”

Se o comportamento opositor persistir e a criança continuar se negando a fazer o proposto, você pode dar a ela outras opções. Incluir seu filho nas decisões e proporcioná-lo algum controle de maneira positiva, pode reduzir o desafio e solucionar o problema mais rapidamente. Você pode tentar dizer, por exemplo:

  • “Você quer colocar seu pijama antes ou depois de escovar os dentes?”
  • “Você quer este, ou este pijama?” (Deixando-o escolher entre dois diferentes).
  • “Você pode tomar banho antes ou depois de …..”
  • Usando a psicologia reversa, você poderá contornar melhor a situação em caso de recusa imediata e prévia a tudo o que você oferecer. Dê como primeira opção aquela que você não quer que seja escolhida, então seu filho escolherá a segunda/terceira, que é a que você quer.

Quando sugiro aos pais apresentar opções para seus filhos, a aceitação desta estratégia é baixa. Os pais costumam questionar muito, achando que assim, estão cedendo a vontade da criança fazendo o que ela quer – que estão abrindo mão de sua autoridade, e compreendem que fazendo assim, quem manda é a criança. Absolutamente, não é o caso. Apresentando as opções que a criança tem, você continua no “poder” – mas ensina um modo de diluir as tensões na forma mais positiva de resolver um problema: buscando possíveis soluções e alternativas.

Veja que a criança não está realmente disputando autoridades com vocês, pais. Esta é a sua percepção. É a sua resposta emocional quando você está alterado, estressado, irritado (especialmente no final do dia, quando bate mesmo o cansaço). Todo o stress causado pela recusa de “não querer abrir mão da autoridade” e então não ser assertivo e oferecer opções para que seu filho participe de uma forma saudável das decisões, vai mostrando a ele que realmente ele tem o poder de ‘lhe tirar do sério”.

A criança, por sua vez, está apenas tentando controlar-se através do meio ambiente, ela está sobrecarregada de tensões emocionais negativas, as quais não consegue expressar, e nem mesmo você consegue identificar pra ela. Logo que esse traço indesejado de personalidade e essa atitude opositor se sobressai, os adultos acabam colaborando para que ela se torne cada vez mais saliente e forte.

Para concluir:

Acredite, você pode ajudar o seu filho a sair desta fase, não preste atenção na birra. Ignorar um comportamento indesejado é o modo mais rápido de se livrar dele.

É preciso compreender que mostrar opções não é ceder. Às vezes basta começar a falar sobre algo não relacionado ao foco de tensão, mas que você sabe que pode despertar grande interesse por parte da criança, para que ela pare com o comportamento.

Dê limites com firmeza, não com raiva! A criança observa, e assimila a diferença. Fale com clareza e objetividade, apenas o necessário. Use o seu senso de humor, e incentive seu filho a usar a imaginação. É uma ótima maneira de aliviar as tensões do dia e tornar o momento mais leve.

Dar limites é uma prática diária e não é uma tarefa difícil, mas consegue ser bem cansativa quando, por exemplo, os pais trabalham o dia todo, e querem que os filhos estejam dormindo em….3, 2, 1.

Seu filho também pode estar cansado e irritado, ou frustrado. A responsabilidade de contornar a situação e ajudá-lo a lidar com a situação é sua, e com trabalho duro e paciência você vai colher os frutos e criar um futuro adulto assertivo e consciente dos limites (pessoais, interpessoais, sociais) – e essa é a maior recompensa que os pais podem ter. Não desistam, esse é um processo longo mas que vale a pena!

Te vejo no próximo mês!

Sobre o Autor
  • Ivete Ridley

    Ivete é graduada em Psicologia, pós graduada em Aplicação da arte na educação em terapia, pelo IATE - Londres. Morando há 25 anos fora do Brasil sentiu a necessidade de um embasamento que sustentasse o trabalho dentro de uma grande diversidade étnica. Assim, a  abordagem Eco-sistêmica, foi se estruturando com a experiência adquirida, estudando e trabalhando em países como:  Inglaterra, África do Sul, Austrália, e atualmente em Hong Kong. Possui 10 anos de experiência  com orientação de pais e professores, envolvendo problemas que afetam o comportamento de crianças em casa e na escola. Seu trabalho tem foco na restauração do vinculo,  proporcionando uma experiência mais organizada, regulando autoridade, orientação e afeto. Também realiza consultoria online.

Compartilhar Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google+ Compartilhar no Pinterest
Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Comentários
  • Manuela - 09/11/2017

    Ivete, obrigada por compartilhar seu conhecimento, adorei o texto, tudo se encaixa muito com o q passo aqui em casa, me identifiquei muito, muito bom! Bjs

    Responder

Você também vai gostar

Continuar Lendo

[VÍDEO] Webaula – Alergia a Proteína do Leite de Vaca, APLV

Alergia alimentar é uma condição relativamente nova para todos, médicos, familiares, pais e crianças. Por isso que as condutas mudam sempre e se atualizam conforme vão aparecendo novos estudos. Os pais e familiares das crianças alérgicas precisam de apoio e informações claras. O reconhecimento e o diagnóstico ainda são difíceis, além disso, cada criança pode apresentar uma forma e intensidade diferente da APLV.

NewsLetter

Você gestante, tentante ou simplesmente apaixonada pelo universo da maternidade? Então se inscreva aqui e receba gratuitamente nosso melhor conteúdo, preparado especialmente para você.

Licença Maternidade