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Filhos, sendo casal, e pais

Quando nos relacionamos com outra pessoa, carregamos muitas vivências e "heranças" do nosso passado, com a família em que fomos criados. E o mesmo ocorre ao nos tornarmos pais. Para tornar tudo mais fácil, um bom começo é se conectar com a criança que fomos.

Quando você ouve a palavra LEGADO, do que você se lembra? Quando olhamos o significado da palavra no dicionário encontramos que legar é deixar por herança, é aquilo que é transmitido a outrem que vem a seguir.

Tudo bem, mas o que isso tem a ver com o relacionamento e/ou com pais e mães? Bom, vou te explicar!

Nosso legado é composto de muitas coisas positivas e outras nem tanto! Somos influenciados pelo que as gerações anteriores de nossas famílias vivenciaram, ao mesmo tempo pelo que nós vivemos nas nossas relações básicas, na nossa relação familiar inicial.

Ou seja, nascemos mergulhados numa história familiar com todos os seus membros e suas vivências afetivas, crenças, segredos, belezas, traumas, desejos e somos influenciados por tudo isso. Nossa história também conta a história de outros, dos nossos, assim como a história de nossos filhos será influenciada pela nossa.

Você já parou para pensar como a sua história de vida familiar está influenciando o seu casamento e a criação dos seus filhos?

É ali na sua família de origem que terá as suas primeiras referências do que é ser casal, do que é ser homem, do que é ser mulher e daí por diante. Ou seja, as suas concepções do que é afeto, do que é um casamento, do que é ser pai e mãe, são impactadas pelas memórias de sua família, pelas heranças familiares que recebeu.

Ao mesmo tempo, trazemos para o casamento, as nossas carências, os “buracos” das nossas vivências infantis, com as expectativas de que o nosso parceiro e a relação tem que preencher essas lacunas.

Mas veja bem, temos que saber que as nossas carências não serão preenchidas pelo outro, isso é uma ilusão e quando colocamos consciente ou inconscientemente essa expectativa no parceiro, a tendência é se frustrar e sobrecarregar o parceiro e a relação.

Então, reflita com carinho e atenção, que legado você recebeu na sua história familiar e que legado quer deixar para seus filhos?

De olho nas expectativas.

Ao transferir uma necessidade de cuidado filial para o casamento, podemos acabar nos frustrando muito, pois parceiro nenhum dará conta de suprir essas expectativas. E isso tende a se complicar quando chega o filho para este casal, pois a tendência é que um se sobrecarregue mais com o cuidado do filho, que o outro.

Grande parte das vezes o aprendizado em relação a isso é vivido à duras penas e muitos casais paralisam nas frustrações dessas expectativas, não enxergando o que o outro, tem como potencial e beleza para oferecer. Olhar para suas expectativas infantis, é essencial para identificar sua parcela de contribuição nos conflitos do seu casamento/relacionamento.

Precisamos aprender a lidar com as nossas falhas e lacunas, nos responsabilizando pelo cuidado conosco e com a nossa felicidade, e não depositar no outro, sobrecarregando-o com as nossas expectativas e carências. Tem coisas que só nós podemos fazer por nós mesmos. Difícil? Claro, mas muito necessário e perfeitamente possível de ser aprendido.

No início da relação ou do casamento a tendência é que estejamos ainda na crença de que encontramos nossa “alma gêmea”, mas com o passar do tempo, as diferenças vão aparecendo e é preciso lidar com elas. Quando ficamos na idealização, não conseguimos lidar com o parceiro real, que é o que está ali com seus defeitos e qualidades, potenciais e limites, muito menos olhar para o que esta pessoa tem de bom para oferecer, pois estamos presos nas nossas expectativas.

Ao mesmo tempo, claro que há situações onde podemos perceber que não conseguimos lidar com tantas diferenças, e pensamos em separação. Escuto muito isso de casais que tiveram pouco tempo de namoro, ou de casais que preferiram acreditar que com o tempo, um conseguiria mudar o outro, ou que ao se casarem tudo mudaria, e com o tempo percebem que aquilo era uma ilusão.

Portanto, é necessário conhecer e se debruçar sobre nossa própria história e a sua influência no que vivemos atualmente. Será que seu legado, suas histórias familiares vêm comandando seu casamento/relacionamento hoje?

Como este é um dos meus papéis aqui, te convido a refletir também sobre estas duas questões, aparentemente  “bobas”, mas tão profundas e importantes na vida conjugal.

Você casou, mas saiu da casa dos seus pais? Será que já deixou, emocionalmente, a casa de seus pais?

Tem pessoas que tem muita dificuldade em fazer essa transição de filho para pai, ficam sempre na posição de filho que espera cuidado, e o grande problema é que assim, geralmente não conseguem assumir plenamente sua parte na relação conjugal e parental, inclusive uma rotina dentro da própria casa e família que formou.

Precisamos lembrar que quando assumimos uma relação estável, assumimos também um outro papel em nossas vidas, o de marido ou esposa. E o mesmo acontece quando nos tornamos pai e mãe, precisamos de tempo para assimilar e degustar tudo isso.

Tem gente que está muito mais casado emocionalmente com outras pessoas, que com o próprio parceiro. Ou seja, tem muito mais intimidade emocional com o pai, a mãe, ou com o próprio filho, do que com o marido ou esposa. Quantas vezes já escutei em meus atendimentos: “me cansei, ele não para de trabalhar nunca” ou “ela não sai da casa da mãe dela”. Homens e mulheres que tem muito mais vínculo, investimento emocional, parceria, com o trabalho, com o filho, com o pai, com a mãe, do que com o próprio parceiro. E você, como se sente com relação a isso? Como é na sua relação conjugal?

Filhos, sendo pais.

Sempre oriento casais que tiveram seus primeiros filhos, a necessidade da privacidade naquele primeiro momento puerperal, claro que toda ajuda ali é importante, mas aquele casal também vai necessitar de privacidade para sentir, degustar aquele momento de transição da família que estão formando, com todas as suas mudanças e readaptações.

É fundamental que a família de origem, avós, tios, tias, entenda que este casal precisará disso para cultivar, alimentar sua intimidade e seus novos papéis. Precisamos saber que não existe o que é certo e errado numa relação, mas cabe sempre analisar: o que pode ser mais funcional e prazeroso para nós?

Por isso, como dica de hoje vamos a (mais) alguns questionamentos para você se fazer:

  • Que tipo de filho fui? E o que levei deste papel, para meu relacionamento de casal?
  • O que será que estou esperando de meu parceiro? Que tipo de cuidado?
  • Será que estou esperando dele algo que eu mesma deveria estar fazendo por mim?

Aqui, é preciso ficar claro, que podemos e devemos cuidar um do outro, o problema é quando isso se torna uma obrigação eterna, com um caráter infantil. Muitas vezes esperamos do outro algo que eu mesmo deveria já estar fazendo por mim e entramos num padrão de dependência.

  • E o seu cuidado com ele, como tem sido? Porque às vezes queremos tanto receber, que esquecemos que relação é troca, também temos que oferecer cuidado.
  • Reflita sobre suas expectativas em relação ao seu parceiro, está depositando muita coisa sobre ele e sobrecarregando-o? Tipo “ele tem que me fazer feliz”.
  • Está deixando seu parceiro assumir a parte que lhe cabe em sua casa e em todos os outros demais aspectos?  Fica tentando salvá-lo ou controlá-lo?

Muitas vezes não damos espaço para o outro crescer. Podemos ser generosos e ajudar o outro a fazer, mas não devemos fazer, nem responder pela vida do outro, pois quando o faço, além de correr o risco de negligenciar a nossa parte, impedimos o outro de crescer, amadurecer e evoluir em sua vida!

E todas essas situações e questionamentos servem tanto para o relacionamento, quanto para o papel de pai e mãe, até porque, não devemos esquecer, antes de qualquer coisa, somos filhos que se tornaram pais.

Sobre o Autor
  • Juliana Caldeira

    Juliana é graduada em Psicologia, e especialista em terapia de família e de casal na abordagem sistêmica. Desde o início já havia escolhido trabalhar com o universo de casais, famílias e tudo que o envolve e o cerca. Desta paixão nasceu o ReInventar Se Espaço Sistêmico, espaço por enquanto virtual, onde idealizou os projetos ReInventar-Se Família, ReInventar-Se Mulher e o Programa Família Gestante, de Pré-natal psicológico e nutricional para famílias gestantes em parceria com equipe multidisciplinar da Clínica Gestar.

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