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Minha vida canadense: cruzei a fronteira sem data pra voltar

Criar filhos, por si só, já é bem complicado e exige muito jogo de cintura. Agora imagine quando você resolve mudar de país e precisa se preocupar com a adaptação dos pequenos. É um recomeçar cheio de surpresas e desafios.

Não sou psicóloga, nem tenho formação na área da saúde. Mas quando recebi o convite para escrever no Licença Maternidade fiquei com a cabeça borbulhando de ideias sobre a melhor maneira de contribuir e ajudar aqueles pais que estejam, como eu, enfrentando o desafio de criar seus filhos fora do Brasil.

Além de nos preocuparmos com a educação, existe uma certa “herança” cultural que buscamos passar adiante, cheia de coisas especiais da terra de origem. No meu caso, optei por largar o emprego e embarcar neste projeto de emigração há quatro anos.

Éramos dois adultos, uma criança de um ano e meio, dois cachorros, sete malas e um projeto de vida. Escolher um novo país para viver é um sonho que custa caro, não só do ponto de vista financeiro. Você paga o preço de abrir mão de muita coisa que antes era o seu ideal de futuro e de certa maneira perdeu o sentido.

Sempre digo que imigrar é como gerenciar uma grande plantação. Não pense que você precisa somente molhar a terra. É preciso escolher a semente, preparar o solo, semear, adubar e etc. Até crescer e dar frutos pode levar meses, mas dependendo de como você consolidou o início do seu trabalho, a colheita será abundante. Essa é moral da história. E embarcar nesse caminho com filhos é algo que requer paciência e envolve muitos desafios.

É preciso todo cuidado com o que se sente e transmite aos pequenos, porque você é e sempre será para os seus filhos o modelo que inspira confiança e controle, mesmo que a sua auto estima esteja no pé. Quando você pisa em solo estrangeiro com essa responsabilidade tem que desapegar de velhas crenças limitantes e fazer o barco navegar.

É um renascer cheio de desafios. A partir do primeiro dia você se vê caminhando com eles por uma terra onde se fala outra língua, a comida é diferente, o clima te surpreende e todos as suas manias, gostos e atitudes precisam ser reformulados e adaptados a realidade em que você se encontra. Os pequenos aprendem muito mais rápido que nós, mas mesmo assim eles precisam de um certo tempo para se acostumar com a nova vida.

Repensando o caminho

Com a maioria das famílias, é água mole em pedra dura, já dizia o ditado. Mas nesses quatro anos de Canadá também conheci famílias que literalmente jogaram a toalha e desistiram, afinal de contas, imigrar é como viver em “gincana permanente”.

Lembro do caso de uma brasileira que conheci no pior momento da sua vida, segundo ela. Casada, uma filha de quatro anos que estava sempre doente (gripes constantes, alergias e afins) e um marido que arranjou um emprego muito bom mas que implicava em viagens mensais. Depois de três anos de Canadá ela chegou à conclusão que todo o stress envolvido não justificava o pacote imigração. O tempo para lazer era curto, a menina por algum motivo inexplicável não se adaptou com o clima e, por fim, a vida estava duríssima. Conversamos por algumas vezes depois que ela retornou ao Brasil.

Foi uma decisão dura, bem frustrante, mas ninguém está livre. O importante é achar o meio termo e saber a pressão que você suporta. Porque uma coisa é certa: filho dá trabalho em qualquer lugar do mundo.

Segurança – melhor que o urso a tiracolo

No Brasil, eu e meu marido sempre trabalhamos muito, mesmo depois do nascimento do nosso primeiro filho. Eu atuava na área de comunicação há mais de vinte anos e meu marido é médico. Quando decidi mudar de país pensei muito em como faria para meu pequeno não sentir tanto o impacto de todas as coisas que teria que enfrentar, bem como, todo conforto que abriríamos mão até tudo se estabilizar.

Acho que o fato de viajarmos com frequência para o exterior ajudou. Além disso, estávamos completamente seguros do que queríamos e batemos o martelo juntos. O mais importante é que optei por uma longa “licença maternidade” para ter horas livres só pra ele. Essa foi a parte mais difícil da história, mas não me arrependo.

Resolvi ter tempo para levá-lo a creche, ajudá-lo a interagir com os amigos na pracinha e provar as frutinhas da terra estrangeira. Um momento só nosso, que inclusive fez muito bem pra minha adaptação também. Foi um tempo muito bem empregado e só teria encarado essa imigração nessas condições.

Desde a chegada no Canadá já se passaram cerca de quatro anos e meio. Até hoje meu filho já passou por cinco escolinhas, em razão das mudanças de Províncias (aqui cada Província equivale a um Estado) e nunca apresentou problemas, além daqueles que talvez tivesse da mesma forma no Brasil. Pelo contrário, ele é conversador (fala pelos cotovelos) em três idiomas e adora se exibir com a sua camiseta verde e amarela. Quando passeamos pela cidade, já conhece todo mundo: é o fulano que joga hóquei, o outro amigo da escola, o conhecido da rua e a rede de contatos não tem fim.

Em 2015, depois de dois anos em solo estrangeiro nasceu a minha menina. Foi uma gravidez super tranquila e um parto normal “nos moldes canadenses” muito aguardado. Todas as peças se encaixando do jeito que eu esperava, ou melhor, do jeito que planejamos.

A família então cresceu e iniciamos um novo desafio educacional, desta vez muito mais fácil. E assim, foi com muita paciência e a lucidez de que não era preciso mudar nada de forma radical, muito menos o idioma, que chegamos até aqui. Desde início falamos somente português dentro de casa, e esporadicamente na rua: – “É a língua da mamãe”, dizem eles.

Se você pensa em emigrar do Brasil e tem medo de seguir este caminho por causa da adaptação das crianças, arranje outra desculpa. Elas só irão te surpreender.

Para concluir:

Este texto aborda sobre os desafios e as expectativas de migrar para outro país com filhos pequenos, a responsabilidade que envolve o processo de adaptação familiar e o desapego necessário para que as coisas possam dar certo na nova vida. Se você passou, ou vai passar por um processo de mudança, deixe seu comentário e conte pra nós da sua experiência! 😉

Sobre o Autor
  • Alessandra Noll Cardoso

    Alessandra é jornalista, casada e mãe de dois. Bacharel em Comunicação Social pela PUCRS e pós-graduada em Marketing pela FGV, no Rio de Janeiro, com mais de vinte anos de experiência na área de comunicação e apaixonada pela escrita. Imigrou para o Canadá com a sua família em 2013 e não tem planos de voltar ao Brasil. Depois de rodar pelo país, vive há um ano na província bilíngue de New Brunswick, na costa leste canadense. Gaúcha, reikiana e adepta a um estilo de vida saudável, cuida dos filhos, administra a empresa da família, e ainda conta um pouco da sua rotina canadense no blog “Canadiando”. Conectada com o planeta através do seu home office, tem sempre um projeto desafiador em cima da mesa, mas tudo no ritmo que escolheu pra ser feliz.

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Comentários
  • Edete - 21/09/2017

    Alessandra, perfeito resumo de uma mudança incrível em todos os sentidos. Grande experiência, para todos, pais e filhos, mas principalmente para os pais que precisam manter a serenidade para lidar com as mudanças de cultura, clima etc! Quando se tem determinação vamos longe! Parabéns e sucesso sempre para vcs👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻😘❤️

    Responder
  • Ana - 18/09/2017

    Ale, adoreeeeeei o texto. Você sabe o quanto ne rsss. :) Não vejo a hora de poder arrumar as minhas malas e partir rumo a este sonho! Sei que nem tudo são rosas, mas também não tenho duvidas de que do jeito que as coisas estão aqui no Brasil, para quem tem filhos, sair acaba sendo uma boa opção, desde que, obviamente, feito com muito planejamento e cuidado para não meter os pés pelas mãos rs... Bjsss

    Responder
  • Mirella - 16/09/2017

    Realmente imigrar não é para todos, mas na grande maioria das vezes, os pontos mais preocupantes são os que no final das contas nos traz a maior segurança. As crianças se adpatam rápido e muitas vezes acabam sendo os que dão forças aos papais.

    Responder

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